terça-feira, 24 de maio de 2011

O retorno da dialética...

“O corte”: apontamentos para uma análise imanente


Paulo Massey
IFCE-Baturité
paulomassey@ifce.edu.br


Antes do filme, o aviso



A análise do cinema, tal como tem sido feita por aqueles que adotam o filme como recurso em sala de aula, é didática e esclarecedora, na medida em que o drama e os vários elementos que compõem a imagem servem como “pretexto” para a discussão baseada na análise sociológica, ilustrando seus temas clássicos. Essa forma de proceder tem seu valor e sua função. No entanto, é um modo de lidar com a obra de arte que se distingue daquilo que poderíamos chamar de “análise imanente”, condição primeira para uma crítica que se pretenda dialética. Numa análise imanente, as várias questões e discussões que podem ser desenvolvidas a partir da obra de arte refletem, em última instância, o conflito que perpassa todo reflexo estético da realidade – a relação forma/conteúdo. E justamente nessa relação está não apenas o fundamento para a análise acerca das formas narrativas e da natureza do reflexo estético-ideológico figurado no discurso cinematográfico, como quer a “crítica” de cinema, mas também a condição para ponderação quanto ao valor propriamente estético da obra. Isso distingue a crítica feita pela análise imanente (interior e dialética) daquela feita pela análise sociológica (exterior e normativa). Veja que o critério da análise e os elementos para o juízo correspondem à essência da própria obra de arte, já que ela é a necessidade de dizer algo (ética) por meio de uma forma (estética) adequada a uma linguagem (do cinema, teatro, literatura, arquitetura, pintura etc.).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Viagem às origens...

Émile Durkheim:

a sociologia como fim, o positivismo como meio

Prof. Paulo Massey

IFCE-Baturité

A novidade específica da Sociologia, em sua constituição como ciência moderna, por certo, não consiste em seu objeto, e sim precisamente em seu método, já que a sociedade e a particularidade dos fatos sociais que analisa sempre estiveram no centro das preocupações humanas – pense-se, por exemplo, na República, de Platão ou na Ética, de Aristóteles, obras que, há mais de 2.400 anos, já ponderavam sobre a forma ideal de organização política, a amizade como modo de relação social, a felicidade como finalidade plenamente humana e outros tantos dilemas para os quais era necessário apresentar alguma solução conceitual que superasse os limites da compreensão mitológica. Igualmente certo, porém, é que a reflexão sobre a vida social dos homens ocupou tradicionalmente, desde priscas eras, os escalões mais altos da abstração filosófica, da distância friamente analítica presa ao “mundo das idéias” e à eterna busca dos fundamentos últimos do ser, do pensar e do agir. Por isso mesmo, a Sociologia começa a se constituir como ciência apenas na segunda metade do XIX, quando a conjuntura histórica e os conflitos em torno de contradições materiais candentes impõem ao seu método que essa reflexão se volte à investigação das relações concretas, empiricamente recolhidas com instrumentos de coleta apropriados, em fontes variadas, para que, por meio da comparação – uma espécie de experimentação possível para as “ciências da cultura” -, se chegasse a afirmações mais gerais sobre os fenômenos investigados, na intenção de se aproximar dos avanços auferidos à época pelas ciências naturais, tal como o desejava August Comte. Segundo ele, os instrumentos dessa nova Ciência (antes nomeada Física Social) seriam, par excellence, a observação pura, a experimentação e a comparação, seguidos da denúncia persistente quanto à impertinência do intelecto, dos juízos e dos ideais acerca do “que é o homem”, dado que essas “paixões” apenas desviariam a ciência da sociedade de sua finalidade original: a descoberta das leis naturais que movem os fenômenos sociais.

Coube a Durkheim dar substância empírica (com o estudo sobre o suicídio, por exemplo) e formalidade acadêmica (com a criação de revistas, disciplinas e laboratórios de pesquisas nas universidades francesas da III República) a estes princípios da Sociologia, legando de Comte a necessidade de afastar a interferência dos juízos na observação e investigação dos “fatos sociais”, sendo fundamental, para tanto, tratá-los como “coisas”. Essa condição de coisa, no entanto, não concerne ao modo de ser dos fatos sociais, ao seu estatuto ontológico – já que, para Durkheim, os fatos ou relações sociais são apenas representações que os grupos compartilham e não coisas materiais, tangíveis -; essa condição de “coisa” remete, isto sim, a uma disposição metodológica, uma espécie de “princípio de ignorância”, uma “dúvida metódica” tal como em Descartes, posta em prática com intuito de afastar o idealismo das deduções lógico-conceituais e as pré-noções acerca daquilo que se quer explicar, o que repõe o axioma positivista da neutralidade junto à necessidade de conhecer os fatos sociais que existem fora do indivíduo como algo exterior, coercitivo e geral. Aliás, é a força de determinação que esses fatos exercem sobre ações individuais que os particularizam como objeto da Sociologia, à medida que se diferenciam radicalmente dos fenômenos psíquicos e físico-biológicos. Como as demais ciências modernas, a Sociologia foi fundada a partir da definição de um objeto e de um método adequado para tratá-lo. Para Durkheim, o objeto dessa ciência que nascia de suas mãos eram os fatos sociais, um fenômeno sui generis que, sendo assim, gênero de si, não se confundiam com os objetos das outras ciências (a biologia, a física, a psicologia, a geografia, a pedagogia...). Sua finalidade, pois, havia se cumprido: Durkheim, esgrimindo firmemente em seu favor, havia vencido a batalha em prol da constituição catedrática da Sociologia. Restava-lhe arcar com o ônus de ter pretensamente alijado para o mundo das ilusões todo o legado da tradição “metafísica”, reunindo num mesmo fardo, junto a Descartes, o sistema categorial de Kant, a fenomenologia histórico-conceitual de Hegel e a dialética materialista de Marx, além dos esforços memoráveis de Smith e Ricardo no que toca à Economia Política. Com arroubos que, por vezes, tomavam o lugar das demonstrações, decidiu-se por aplicar o método positivo das ciências da natureza aos fenômenos cuja natureza ele mesmo havia atribuído a singularidade de existir apenas em sociedade. Ainda assim, conseguiu inverter os termos de Comte: fez da Sociologia um fim e do positivismo um meio. Pretender não uma religião da ciência, mas uma ciência da religião foi a prova primeira disso.

(Texto elaborado para a disciplina de Sociologia do Turismo dos cursos Tecnológico em Hotelaria e Técnico em Hospedagem)